sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Tempo bom!

Ele amanhece na cidade cinzenta que tanto ama, abre a geladeira e pega seu suco de uva. Toma uns goles e corre para o banho. Está atrasado. Enquanto lembra da noite quente sob as cobertas seu telefone toca, mas não escuta. Seu namorado vai atender. É a voz de um outro alguém que se assusta e desliga. A pulga salta e vida segue. Saí do banho. Se aquece. Um café com muito Amarula para sair exalando tesão. Dá um beijo quente e recebe um desconfiado. Mas o tesão que já lhe toma a alma diz: Vamos? 

Pega a mochila sobre a cama, o relógio na cabeceira e o celular no banheiro e se dirige para o trabalho. No caminho longo pensa um pouco no que fazer da vida. Mexe em seu celular e percebe que o outro ligou. Seu amante, muito amante não resistiu e ligou. 

- Agora entendo o beijo que recebi. 

Sorri, olha para o lado e vê seu reflexo no vidro. Percebe que esta sendo fitado. A Amarula toma conta de seu ser, não tem como controlar. Resolve descer do ônibus, mas a Amarula não o deixa. Foge dela pegando um taxi. No automóvel se decide. Mudou o status de seu perfil para "na mesa de negociações". Enfim chega ao trabalho e é recebido por sua secretária que diz: Está atrasado para a reunião. 

Corre. Entra na sala ofegante. Passa o dia nela e às 21 horas está liberado. Corre para descansar. Vai tomar um café na gelada noite paulistana em um local que não é o café que dita o ritmo do calor. Homens, cartas, luz baixa, uma sensual morena dança enquanto canta jazz. Esse é o local.

- Garçom, o que você tem para mim hoje?

- Mesa 5. responde ele. 

Chegando lá encontra o seu celular, uma garrafa de Amarula, seu namorado, o seu amante e uma mesa.

A negociação começa e em poucos segundos há o verito. Uma relação a três acontecia e só ele não sabia. Ele decide então escolher aquela que lhe dá mais prazer. Agarra a Amarula e sai sob a chuva para gastar todo o tesão guardado naquele corpo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cantina Sogni d'oro!


Um dia cansativo chega ao fim. Ele caminha a passos de zumbi até a cozinha de Pepe. Entra pelos fundos para não ser notado pelos clientes do grande amigo italiano que ao vê-lo diz:
- Mio dio che cosa ci fai qui in questo stato? (Meu Deus o que você está fazendo aqui neste estado?).
- Tive um dia muito pesado, alias, uma semana daquelas. Tem como me preparar a pizza da Mama de oito fatias?
- Tens certeza mio amico?
- Sim, sim.
- Certo. Vou fazer. Vinho?
- Sim.
Enquanto esperava Pepe fazer a pizza encaminhou-se para uma mesa vaga da cantina e degustou a garrafa do vinho que preparava o coração. Ao término da garrafa, a pizza estava pronta. 
- Buon appetito! 
Olhou para a pizza fixamente, fez uma prece e enquanto a olhava suas papilas gustativas começavam a funcionar. 
Pegou a primeira fatia com a mão mesmo, sem guardanapo, tampouco garfo e faca. Foi matar logo a sua fome. Estava diante daquela que se alimentava das suas vísceras. Não teve muito tempo para saborear a fina massa preparada pelo italiano. Era como a segunda-feira. O abre-alas da semana. A que queremos que logo vá embora, que seja devorada. 
A segunda fatia foi engolida de maneira um pouco menos veloz, mas ainda assim rápida. Queria que chegasse logo a quarta-feira. O dia que para ele consta como sendo a metade da semana, o dia que vamos dar uma parada e foi assim que o fez na terceira fatia, a quarta-feira. 
Para degustar esta levantou a cabeça, respirou fundo e pediu um refrigerante. Enquanto a bebida não chegava, pensava um pouco na vida e percebeu que sua língua estava queimada. Foram as duas primeiras fatias que estavam muito quentes, mas por serem os dois primeiros dias da semana, não as quis sentir passar por suas papilas, mesmo elas se mostrando ansiosas para ficar, não ficaram. Entraram e desceram o túnel como as anteriores.
A quarta fatia já a degustou de maneira tal que sentiu prazer com a sua passagem. Era a fatia que antecipava a que para ele era a melhor: a quinta fatia, a sexta-feira.
Essa era especial. Antes de degustá-la pediu a carta de vinhos. Essa merecia uma acompanhante a altura. Esperou de maneira aflita sua acompanhante. Enfim ela chegou. Olhou para a combinação. Sentiu um enorme prazer antes mesmo de toca-las. Estava excitado. As comeu calmamente. 
A sexta fatia chegou com a sensação de empanzinamento, mas a comeu. A ressaca gastronômica já se fazia presente no sábado. 
A sétima era o domingão. Chinelo, sofá e cobertas. Foi assim que ele, já com o ritmo muito devagar, digeriu o último dia da semana, que na realidade é o primeiro, no entanto, não é esta a ordem dele. 
Parou diante da última fatia. O nome dela era saudade. Com elas nas mãos deixou uma lágrima escorrer por seu rosto. A cada milímetro percorrido por ela uma lembrança de outrora se fazia presente em sua boca seca. Sentia seu coração bater acelerado e preso em sua garganta. Os clientes assustados notaram que ele pediu a pizza da Mama e chegará à última fatia. 
Ele estava brincando de estátua. Somente quem se movia era a água que percorria calmamente sua face até parar. Parou na lembrança que ele mais gostava.
Via-se trancado no banheiro com milhares de músicas tocando em sua mente. Dançava de um jeito que só ele e Deus conheciam. Cantava todas as músicas sem ninguém ouvir quais eram. Era o seu segredo, a sua lembrança.
Pisca o olho. Acelera a queda da gota. Deixa a fatia de pizza no prato e se vai.
Esta, a lembrança, a saudade, ele jamais poderia devorar, tampouco degustar. Queria tê-la com ele. 
Pois ainda hoje, muitos anos depois, tem este mesmo momento com Deus. 



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O relógio.

Sentado, segurava com as mãos a cabeça que teimava em cair. Juntamente com ela caiam as lágrimas que escorrem sem parar por seu rosto formando um enorme lago sob seus pés. Ao seu redor algumas pessoas. Diante de sua própria dor, não consegue reconhecer quem são. Só sabe que suas bocas metralham milhares de palavras por segundo. Olha para cima e diz:
- Por que senhor?
Ao mesmo tempo enxerga um relógio. Fica hipnotizado olhando os números até que percebe algo diferente. O relógio está voltando no tempo.
Boquiaberto espera ansiosamente o próximo minuto agarrado na cadeira.
Ao piscar os olhos recebe uma enorme onda de água. Ao piscar novamente se desespera. A cadeira se tornou um pequeno barco. As metralhadoras saíram das bocas e estão presas no barco. Elas atiram milhares de balas por segundo para todos os lados. Está em uma guerra sobre as ondas de algum oceano Deus sabe onde. Coloca as mãos para fora e começa a remar loucamente fugindo das balas que passar tão perto de seus ouvidos que as escuta dizer: Oi, talvez meu outro amigo que vem aí atrás te acerte.
Ao levantar a cabeça, vê que rema para a morte. O oceano na realidade é um grande rio que está se acabando. Vem aí uma enorme queda d'água. Se rasteja para o final do barco para remar-contra-a-maré.
Tudo em vão. Cai. Enquanto cai, a paz de sentir voando é uma mão que lhe acaricia a alma.
Em posição fetal cai na água e bate a cabeça no fundo do rio. Atordoado, abre os olhos aos poucos. Muito barulho e luz. Senti a sua cabeça molhada. Ao colocar a mão no local e leva-la próximo dos olhos, tudo está vermelho. Sua cabeça sangra. Junta forças e se senta. Ao se sentar vê em seus pés chuteiras e em suas pernas, meiões. Bermuda e camisa também estão nele. Um companheiro vem correndo lhe ajudar.
- Você está bem? - disse.
Demorou mais alguns segundos para entender que levará um cotovelada na cabeça jogando a final do futebol de campo nas  Olimpíadas.
- Onde estou? - perguntou assustado.
- É a final Peter. Estamos em casa contra os alemães.
- Que ano estamos?
- 2012. Você está bem?
- Sim, sim! Vamos jogar!
Levantou e foi em direção ao médico da seleção. Ele fez um curativo e o bravo jogador voltou para defender a sua Nação. Ao entrar novamente em campo todos gritavam seu novo nome.
- Peter! Peter! Peter! Peter!
Recebeu a bola e com um gingado e habilidade fora do comum no mundo britânico, partiu pra cima. Driblou até o juiz e "entrou com bola e tudo". O estádio veio a baixo.
- The game is over!! - gritava enlouquecidamente o locutor. Enxergava raiva no olhar dos torcedores ao gritar gol! O arbitro reiniciou a partida e assim que Peter pegou na bola, um alemão tamanho "G" lhe deu outra cotovelada. Estava no chão e, mais uma vez, ensanguentado. Só que dessa vez "o pau cantou". Enquanto alemães e britânicos se esmurravam, Peter se rastejava sem enxergar muito. Estava debilitado. Se rastejou e caiu no foço. Quando enfim bateu no chão escutou um enorme estouro. Terra e pedaços metálicos caíram sobre o seu corpo. Por alguns segundos ficou surdo, nos seguintes, ouvia zunidos até que minutos depois ouvia gritos e tiros. Sentou-se novamente e olhou para seus pés. As chuteiras deram lugar as botinas. Estava dentro de uma trincheira. Era a Segunda Guerra Mundial e ele, um soldado britânico. Em um segundo estava com medo, no outro confuso e no seguinte acendeu um cigarro e ficou esperando o relógio andar mais uma vez no tempo e leva-lo para outro lugar.
- Relógio, me tire daqui. Talvez para um mais agradável!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Por que ensina o professor a geografia da morte? - Pablo Neruda

Uma ano depois. Parado. Com a mesma roupa. A mesma cabeça cheia de idéias no vácuo. Na mesma varanda. Na mesma posição. Na mesma cidade. Antes, madrugada; hoje, a tarde.
O menino fica olhando a mesma vista de outrora.
Hoje conheceu, percebeu, um típico homem do agreste, o homem-lagarto.
Dentro de casa faz muito frio. As casas são coladas. Não entra muito calor. O que perpassa é a corrente de ar frio. Ficar na laje, hoje não tem graça.
Se ficar em casa deixará seu coração se tornar gelo. Precisa sair. Precisa se tornar lagarto.
Em um piscar de olhos não o vemos mais.
Está lá fora colado na parede. Na parte que faz sol. Quanto mais tempo o sol permanece na parede, mais tempo o lagarto permanece imóvel sobre os olhos aquecendo o seu coração.
Enquanto o homem-lagarto acompanha o sol pelas paredes e o menino fica sentado na varanda, sorrindo e pensa: O homem-lagarto é da família dos girassóis?
Bate a agonia novamente e o menino entra.
Vê seu companheiro ao lado de García Márquez psicografando mais um ponto.
Ainda agoniado caminha pela casa. Ervas, pão, vinho e mulheres.
Volta para a varanda. O homem-lagarto andou pouco.
Em transe o menino tem mais devaneios.
Fecha os olhos e se vê pulando da varanda.
Seu corpo sinuoso desvia dos fios de alta tensão e cai no mar gelado do polo sul.
Quanto mais nada para a superfície, mais sem folego fica. Para. Flutua dentro d'água. Entende a lógica.
Nada para o fundo. Quanto mais para o fundo, mais folego tem. Descola um caiaque com uma sereia. Troca  suas pernas pelo caiaque e por remos.
Transfigurado e com o pulmão cheio de oxigênio passeia pelos mares.
De repente desperta. Está Maysa a lhe chamar. Entra para ver o que quer.
O homem-lagarto estava à porta o convidando para aquecer seu coração.
Com suas pernas de volta corre e se joga na parede. Fica relaxado e feliz por lá.
Deste local vê a si mesmo na varanda conversando com Neruda que em espanhol lhe pergunta: Por qué se suicidan las hojas cuando se sienten amarillas?


Ao som de "La lune de Gorée" e "Se quiser falar com Deus" - ambas na voz de Caetano Veloso.


sábado, 7 de julho de 2012

Releitura.


“Se eu não rezei direito o Senhor me perdoe. Eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração”.

Dia após dia ele pede. Pede o que não precisa. Olha para o que o outro tem, pega mais uma vez o trem e como muito desdém diz: Tenho não senhor.

Na hora que a sombra se esconde sob ele mesmo, o estômago faz barulho.

É chegada a hora da pausa. Nutrir o interior sem perceber que seu colega nada tem.

Volta ao trabalho. No final do dia volta ao vai-e-vem do trem.

Chega a casa e vê sua pequena no canto chorando.

- O que você tem minha filha?

- Nada não papai.

- Pode falar. Estou aqui para te ajudar.

- É que minha amiguinha ganhou uma boneca nova.

- Minha pequena, a gente já conversou sobre isso. O papai e mamãe estão sem dinheiro no momento.

- Eu não quero a boneca.

- Então por que o choro?

- Imaginei os pais dela dando o presente e ela quebrando em pouco tempo. Ela não dá valor ao que tem papai.

Neste momento ele vira para o céu e diz:

- “Perdoe encher meus olhos d’água”. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Eduardo e Mônica



Eduardo passou às lindas tardes do ano a espera dela. Ela mais velha, tem que trabalhar. Não tem possui tempo vago durante as lindas tardes de céu azul como o dia de hoje, não junto com ele. 
Dias como os de hoje merecem sorvete, caminhar livre por aí, sem destino, sorvete, água de coco... o lugar pouco importa, para Eduardo a Mônica é o que importa. 
Mas ela anda muito ocupada com o trabalho. Esta presa a ele.
Ele, Eduardo, passa muitas tardes bolando tardes perfeitas com ela. Por ser muito jovem, não conseguia entender como ela não fugia do trabalho para viver com ele. Ele só a pedia uma tarde e nada mais.
Enfim ela entrou de férias. Deus dá como prêmio de boas vindas a ela, uma linda tarde de céu azul, muito dinheiro no bolso para tomar muitos litros de sorvete e Eduardo totalmente disponível. Mas, o que aconteceu? Ela ainda tem uma pendência com o trabalho.
Eduardo ficou triste. Olhou pela janela e viu o céu azul. Lembrou é que hoje é a última noite de lua cheia e  ela ainda tem uma pendência. Não vão poder se ver.
Será que ela está vendo isso? Será que ele está exagerando?
Sinceramente eu não sei. Vou é aproveitar a tarde azul e a noite enluarada!
E Eduardo, você só vem primeiro neste texto e na música, porque no resto...

domingo, 17 de junho de 2012

Numa noite dessas qualquer...

E eu? Ainda te espero chegar.
O sol já vai nos deixando. A lua vai chegando.
Oh friozinho gostoso.
Caminho sozinho entre os casais enamorados que aproveitam o frio para ficarem agarradinhos...
E eu? Ainda de espero chegar.
Uma paradinha para um chocolate quente para aquecer o coração.
Ao respirar aquela fumacinha gostosa.
É hora de colocar um agasalho.
Conversando com Luiz olho pro céu. Vejo como ele está lindo.
A visão do Paraíso.
Abaixando a visão, mais fumaça.
Crianças correm ao redor da fogueira.
Os pais enamoram na porta de casa, observando as crianças, cumprimentando os vizinhos que o mesmo fazem.
E eu? Ainda te espero chegar.
Continuo a minha caminhada.
Entro pela noite. O frio aumenta.
Hora de se reaquecer.
- Amigo, aquela cachacinha, por favor.
Enquanto me deleito os escuto ao longe.
Triângulo, sanfona e zabumba.
E eu? Te espera chegar.
Adestrado farejo as pistas até te achar.
Achei!
Cheguei ao pátio do forró.
Aqui vou encontrar meu amor para me aquecer a noite inteira enquanto forrozamos!